O desafio
Aula de Geografia, 4º ano ginasial, juro que tentei lembrar do nome do professor, mas a memória não ajudou. Recordo, entretanto, da figura dele, sempre impecável e muito sério. O rito da aula sempre se repetia: ele entrava na sala e sua simples presença bastava para aquietar o burburinho da turma. Ele se sentava, abria suas anotações, e nós todos de caderno e lápis na mão, aguardávamos. Ele então começava: “Geografia econômica ... Algodão ... O algodão ... tá rá ri tá rá rá” (não me lembro mais absolutamente nada a respeito do algodão), ele ditava o ponto e nós copiávamos, durante os 50 minutos da aula, ele ditava e nós copiávamos. Na aula seguinte, mesmo ritual: “Milho .... O milho ..., e lá vai a história do milho (da qual também não lembro nada). Zero em didática, principalmente em um colégio onde novas técnicas pedagógicas eram experimentadas, as salas de aula não eram nada convencionais e, desconfio, nem as turmas eram lá muito convencionais. Mesmo naquela época, algumas visitas às bibliotecas teriam produzido o mesmo resultado. Hoje em dia, o pobre poderia ser linchado ...
Lá pelas tantas, entretanto, um evento se produziu. Aquele professor monocórdio lançou um desafio para as turmas: montar uma exposição de maquetes usando os temas que faziam parte do programa. Surpreendentemente, a turma acordou daquele transe induzido. Ele conseguiu mexer com aquele elemento fantástico que existe dentro de cada adolescente e que se motiva quando percebe uma oportunidade para inventar algo novo, para criar, inovar. Os olhos brilharam e os grupos começaram a se formar, cada grupo escolheu seu tema e começou a dar asas à imaginação e trabalhar e produzir.
No dia da montagem da exposição, as ideias sobre os temas foram se revelando e o resultado foi muito bom! Lembro de várias maquetes particularmente interessantes e criativas. Todos nós satisfeitos com os trabalhos produzidos e, muito senhores de si, explicávamos os temas para os visitantes. E, no meio destes, acabamos recebendo a ilustre visita do reitor da UEG. Convidado pelo diretor do colégio, passou para uma visitinha rápida, só para “marcar presença”. Começou a ver as maquetes, parava, ouvia as explicações de cada grupo, perguntava, elogiava e os poucos minutinhos viraram mais de uma hora. Ficou tão encantado com o que viu, que chamou nosso diretor e disse: “Sabe aquele seu pleito para instalar o colégio em outro prédio? Pois bem, vocês acabam de ganhar o prédio! Esta turma merece!”
A fala eu inventei, mas sei que foi por aí. E foram as nossas turmas que, expressando uma força e um entusiasmo próprios da juventude, conseguiram, com muito orgulho, o prédio da antiga Escola de Enfermagem Ana Neri, transformando aquele espaço no colégio que foi nosso durante os anos finais daquele período, com muitas novas histórias para contar.
Sergio Fialho, 19/02/2023